e-issn 2227-6513 santiago, Nro.Especial, 2025

Artículo de Investigación

Entre gasto y exceso: una reseña de la parte maldita de Georges Bataille

Between expenditure and excess: a review of Georges Bataille’s the accursed share

Entre dispêndio e excesso: uma resenha de a parte maldita de Georges Bataille

Pedro Antônio Gregorio de Araujo, https://orcid.org/0000-0003-0592-1303

Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Escola de Humanidades, Programa de Pós-Graduação em Filosofia, Porto Alegre, RS, Brasil

*Autor para correspondencia: pedro.araujo@edu.pucrs.br

RESUMEN

Esta reseña tiene como objetivo exponer críticamente el libro La parte maldita de Georges Bataille (1897-1962) según la edición de 2016 de Autêntica Editora. En esta versión tenemos el texto de 1949 La parte maldita precedido por el artículo de 1933 La noción de gasto. En estas dos obras, Bataille critica la forma en que tradicionalmente se concibe la economía. Según el autor, el centro de la economía, así como de la naturaleza y del hombre, no es la producción, sino el gasto, la inutilidad. Para defender esto, en el texto de 1933, Bataille se basará en el gasto social que se constata en lujos y despilfarros, en obras de arte, en sacrificios y en juegos; por lo tanto, la institución de los intercambios primitivos representados por el potlatch indio norteamericano es de suma importancia para su argumento. En el libro de 1949 la cuestión social permanece, sin embargo, Bataille propondrá que el gasto se encuentra, en primer lugar, en la naturaleza, simbolizada por el sol, que da sin recibir, y a partir de esta observación iniciará un análisis de diferentes sociedades históricas y de las cómo han gestionado el excedente hasta el momento. Nuestro objetivo en esta revisión es presentar críticamente los argumentos planteados por Bataille, así como sus presupuestos teóricos y posibilidades de actualización de su teoría.

Palabras clave: Bataille, gasto, improductividad, potlatch, sacrificio

Abstract

This review aims to critically expose the book The Accursed Share by Georges Bataille (1897-1962) according to the 2016 edition of Autêntica Editora. In this version, we have the 1949 text The Accursed Share preceded by the 1933 article The Notion of Expenditure. In these two works, Bataille criticizes the way in which the economy is traditionally conceived. According to the author, the center of the economy, as well as nature and human beings, is not production, but expenditure, uselessness. To defend this, in the 1933 text Bataille will rely on the social expenditure witnessed in luxuries and waste, in works of art, in sacrifices and in games; therefore, the institution of primitive exchanges represented by the North American Indian potlatch is of paramount importance for his argument. In the 1949 book the social issue remains, however, Bataille will propose that expenditure is found, firstly, in nature, symbolized by the sun, which gives without receiving, and based on this observation he will begin an analysis of several historical societies and the way which they dealt with the excedent up to the current times. Our objective in this review is to critically present the arguments raised by Bataille, as well as his theoretical presuppositions and possibilities for updating his theory.

Keywords: Bataille, expenditure, improductivity, potlatch, sacrifice

Resumo

A presente resenha trata de expor criticamente o livro A Parte Maldita de Georges Bataille (1897-1962) conforme a edição de 2016 da Autêntica Editora. Nesta versão, temos o texto de 1949 A Parte Maldita precedida pelo artigo de 1933 A Noção de Dispêndio. Nestas duas obras, Bataille realiza uma crítica à maneira que a economia é concebida tradicionalmente. Segundo o autor, o centro da economia, assim como da natureza e do ser humano, não é a produção, e sim o dispêndio, a inutilidade. Para defender isso, no texto de 1933 Bataille se apoiará no dispêndio social presenciado nos luxos e lixos, nas obras de arte, nos sacrifícios e nos jogos; portanto, a instituição de trocas primitivas representada pelo potlatch dos índios norte-americanos é de suma importância para sua argumentação. No livro de 1949 a questão social permanece, no entanto, Bataille proporá que o dispêndio se encontra, primeiramente, na natureza, simbolizado pelo sol, que dá sem receber, e a partir desta constatação ele partirá para uma análise de diversas sociedades históricas e a forma como elas lidaram com o excedente até os tempos atuais. Temos como objetivo nesta resenha apresentar de forma crítica os argumentos suscitados por Bataille, bem como suas pressuposições teóricas e possibilidades de atualização da sua teoria.

Palavras-chave: Bataille, dispêndio, improdutividade, potlatch, sacrifício

Recibido: 19/10/2025 Aprobado: 14/12/2025

INTRODUÇÃO

Tradicionalmente, a ciência econômica definiu como centro de seu estudo a produção e acumulação. Este é o enfoque das diversas teorias econômicas independentemente de sua ramificação: a utilidade da economia, o seu “bom uso”. Entretanto, uma perspectiva pautada por conceitos tais quais produção, utilidade, escassez, acumulação não seria justamente uma redução da economia e também da vida? Pois a visão baseada na utilidade seria justamente uma homogeneização da vida, e, portanto, um esquecimento daquilo que está para além da utilidade.

Desafiar essa maneira tradicional é o objetivo da obra de Georges Bataille (1897-1962). O autor cujos livros de natureza interdisciplinar (dialogando com filosofia, religião, sociologia, antropologia, economia, literatura e afins) sempre estiveram a representar um mesmo texto: um texto do excesso, da soberania, da heterogeneidade, da transgressão. No artigo A Noção de Dispêndio (1933) e no livro A Parte Maldita (1949) seu alvo é precisamente falar do excesso no âmbito econômico. A partir de uma combinação de influências intelectuais diversas (Nietzsche, Marx, Hegel, Freud, Sade, Mauss, Weber, Durkheim), Bataille proporá em ambos os textos que o centro da atividade econômica e social do homem é o dispêndio, e não a produção.

É necessário contextualizar ambas as obras. O contexto histórico da Europa de 1933 era obscuro: o nazifascismo estava em plena ascensão e as sociedades liberais europeias estavam em crise – Mussolini já havia assumido controle da Itália em 1922 e o partido nazista tinha dominado a Alemanha no ano de 1933. A situação nos Estados Unidos também não era uma situação positiva, o país ainda estava passando pela Grande Depressão de 1929. Bataille originalmente publica A Noção de Dispêndio na revista de esquerda não-stalinista La critique sociale (revista onde Bataille escreve no mesmo ano O problema do Estado e em 1934 A Estrutura Psicológica do Fascismo), portanto podemos notar nesse artigo certo ardor revolucionário, um pedido de revolução; bem como diálogo com categorias marxistas como a luta de classes, comunismo e revolução. Bataille faz uma contraposição não somente entre burguesia e proletariado, mas também entre acumulação e potlatch. Há também um silêncio quanto à União Soviética. O dispêndio, neste texto, é oriundo de um princípio de perda, e é visto pelos seus aspectos culturais.

Já o contexto histórico do livro de 1949 é diferente: estamos já num mundo pós-Segunda Guerra Mundial e com isso veem o início da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. A Europa estava arrasada com o fim da guerra, e estava em processo de reconstrução. A questão da guerra em A Parte Maldita é de suma importância para Bataille, pois com sua teoria ele busca uma forma de evitar que a energia em excesso seja dispendida em uma guerra. Portanto, esta já é uma obra sistemática, englobando filosofia da natureza, filosofia da economia, filosofia da história. Contrastando com o ardor revolucionário do texto de 1933 e seu silêncio reprovador quanto à União Soviética, Bataille se aproxima de sua temática de uma forma mais sóbria e madura, assim como tece um elogio à experiência soviética no período de Stalin. O dispêndio aqui não está presente apenas no âmbito social, ele é oriundo de um circuito de energia cósmica do sol; a contraposição agora é entre o espaço limitado da Terra e a dádiva infinita do sol. Contra as “economias restritas” Bataille vai teorizar uma “economia geral”.

Nesta resenha crítica, vamos prosseguir da seguinte forma: iremos expor e analisar os argumentos de Bataille acerca do dispêndio primeiro no texto de 1933 e depois no livro de 1949. Por fim, trataremos de visualizar como esta obra, apesar de em sua época de publicação ter sido um fracasso, foi influente décadas depois.

Metodologia

A metodologia que utilizamos para realizar esta pesquisa se baseia na descrição analítica e crítica da obra de Bataille, tendo como delimitação o texto A Noção de Dispêndio e o livro A Parte Maldita para podermos oferecer uma visão focada na base do problema do excedente para o autor. A abordagem utilizada por Bataille em seus textos é uma abordagem tida como “heterológica”: uma tentativa de fazer possível falar de certos conceitos sem que estes sejam cooptados ou rejeitados por um discurso homogeneizador. O conceito de “dispêndio” é um destes conceitos frequentemente acoplado ou excluído pelos sistemas de pensamento tradicionais. Para tanto, Bataille busca não negar os sistemas, mas sim mostrar que até mesmo dentro de um pensamento fechado há perspectivas de abertura, isto é, que mesmo dentro de um pensamento homogêneo existe um centro heterogêneo, o que é o caso do dispêndio na economia. O que buscamos aqui é fazer uma reconstrução do trajeto de Bataille nestas duas obras norteadoras para assim ficar clara a possibilidade de interpretar o excesso como o centro da economia e de um pensamento.

A importância de abordar estas obras de Bataille está no fato de sua importância para autores posteriores, e também para demonstrar as teses deste autor tão pouco estudado. É sabido que sua obra teórica foi escrita no contexto da Segunda Guerra Mundial e do pós-Segunda Guerra Mundial e que o pensamento filosófico imperante era o existencialismo de Jean-Paul Sartre na França. Porém, a filosofia de Bataille, com sua ampla gama de influências (Nietzsche, surrealismo, Hegel, Marx, Freud, antropologia cultural) permanece um pensamento que abre caminhos para o estudo de categorias que são frequentemente ignoradas no pensamento tradicional, tais quais o dispêndio, o erotismo, o sacrifício religioso, a morte e assim por diante.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Nesta seção refaremos o caminho teórico de Bataille, primeiramente no texto A Noção de Dispêndio (1933) e posteriormente no livro A Parte Maldita (1949).

No texto de 1933 a conceituação do dispêndio é realizada a partir de categoria sociais, resgatando a instituição do potlatch dos povos originários norte-americanos para criticar a forma que noções como produtividade, escassez, e utilidade são colocadas como centrais na teoria e prática econômica.

Já no livro de 1949 a forma de apresentar o dispêndio tem uma inspiração ontológica, como se o excesso fosse algo que circunda o universo e se expressa nas diversas formas de vida. O simbolismo do sol é o ponto de partida para a teoria de Bataille, pois este dá sem nunca receber. É necessário, pois, uma visão de economia geral em vez de uma economia restrita, porque somente aquela pode dar uma solução não-destrutiva do problema: o que fazer com o excedente? Para isso é necessário analisar as diversas sociedades históricas.

A NOÇÃO DE DISPÊNDIO (1933)

Bataille começa o seu texto de forma categórica, afirmando que debates pautados pela utilidade são debates falseados pois tal conceito nunca é definível por si só. O interlocutor que fala sobre utilidade sempre remete, em última instância, para algum conceito fora desse quadro teórico, como por exemplo: dever, honra, Deus, Espírito. Não somente o debate é falseado como também a utilidade é um princípio insuficiente, pois este é um conceito usado para limitar o escopo da vida do ser humano: a atividade humana vira algo voltado apenas para a produção e acumulação. A utilidade visa o prazer, porém é um prazer moderado, comedido, visto como uma concessão. Logo, tudo que pertence ao dispêndio improdutivo (obras de arte, o desregramento, jogos) são removidos a existência social por não se enquadrarem no campo da utilidade.

A crítica principal de Bataille à utilidade é o fato dela reduzir a atividade humana, e por consequência o próprio humano, a processos de reprodução e conservação, esquecendo, assim, o consumo, que pode ser dividido em dois: dispêndios produtivos (que podem ser reduzidos à produção e conservação) e dispêndios improdutivos (exemplificados pelo luxo, enterros, guerras, cultos, jogos, espetáculos, erotismo) que colocam a ênfase em perdas cada vez maiores . É este segundo tipo de dispêndio que Bataille busca conceitualizar e, doravante, será chamado apenas de dispêndio. Estes dispêndios estão espalhados pela sociedade, e Bataille cita quatro exemplos destes: 1) a maneira como se gasta milhões para se possuir uma joia que não tem função prática, como se a joia fosse uma matéria maldita tal qual o excremento; 2) os cultos sacrificiais que ao sacramentar determinada coisa está destruindo-a enquanto possibilidade de uso; 3) as apostas em jogos competitivos e sua relação com a ostentação; 4) as obras de arte que não possuem um valor produtivo.

Segundo Bataille, o dispêndio é o primário enquanto que a produção e aquisição é secundária nesta relação. Isto se confirma, de acordo com Bataille, pela forma que a miséria é colocada em segundo plano pelas sociedades: a preocupação de todas as sociedades foi com o dispêndio improdutivo, e não com a conservação, e isso fica mais claro na análise das instituições econômicas primitivas. Contra a teoria oriunda da economia clássica que a troca primitiva se dava por meio do escambo, Bataille traz como exemplo o potlatch dos índios do noroeste norte-americano e o princípio da troca. O pensador retoma aqui a análise do potlatch empreendida pelo antropólogo francês Marcel Mauss (1872-1950).

O potlatch era uma instituição destes povos, indistinguível da troca e da festa, que constituía em uma tribo realizar uma dádiva para outra tribo com a intenção desta responder com usura. Ou também na forma de uma tribo destruir suas próprias riquezas com a intenção da tribo rival destruir suas próprias riquezas. A troca, quando surgiu, foi imediatamente subordinada a um fim humano. Ao contrário da economia mercantil, onde as riquezas têm um sentido de acumulação. Entretanto, o mecanismo do potlatch permanece vivo, mesmo sob esta configuração nova:

Os componentes elementares do potlatch encontram-se, nessas novas condições, sob formas que não são mais tão diretamente agonísticas: o dispêndio ainda é destinado a adquirir ou a manter a posição, mas em princípio não tem mais como finalidade fazer com que um outro perca essa posição. (Bataille, 2016, p. 27)

O fim último da riqueza é a perda ostentatória. A posição social está ligada à posse de fortuna, porém sob a condição de que parte dela seja sacrificada a dispêndios sociais improdutivos. Entretanto tais formas de dispêndio desapareceram com a ascensão da burguesia e do capitalismo. O dispêndio burguês é um dispêndio anódino, dissimulado. Isto, para Bataille, é uma das motivações para a luta de classes: ao passo que o proletariado produz para viver, a burguesia produz para degradar os operários. A exploração pode ter tomado uma faceta mais branda, porém ela continua mais forte do que nunca. A própria luta de classes é um dispêndio social para Bataille, conforme ele escreve que quando esta é retomada pelo proletariado se torna a forma mais grandiosa de dispêndio social.

A PARTE MALDITA (1949)

Em A Parte Maldita temos um livro dividido em cinco partes, e cada parte com dois capítulos. Na primeira parte, Bataille realiza uma introdução teórica para os conceitos que servirão para sua análise assim como questões que ele busca resposta. Primeiro ele expõe o sentido e depois as leis da economia geral. Depois desta introdução teórica, o autor faz análises históricas de sociedades. A segunda parte é dedicada às sociedades da consumação: os sacrifícios astecas e as dádivas dos índios do noroeste norte-americanos. Na terceira parte, vemos a contraposição de duas sociedades de empreendimento: a primeira uma sociedade de empreendimento militar (o Islã) e a segunda uma sociedade de empreendimento religiosa (o Tibet). A sociedade industrial é o enfoque da quarta parte, sendo primeiramente visto a relação entre a ascensão do capitalismo e a reforma protestante e na sequência o mundo burguês contemporâneo. Na quinta e última parte, focada nos dados presentes, há análise da industrialização da União Soviética e do Plano Marshall.

Bataille começa seu livro fazendo uma crítica: a economia é tratada, tradicionalmente, de forma isolada. A economia é vista como uma operação particular com um fim limitado e nada além disso. Situações isoladas são generalizadas, reduzindo os fins das coisas para os fins do homem econômico. A economia (denominada de economia restrita) não percebe a atuação da matéria viva, e não consegue aceitar que ela mesma é efeito desta energia:

A atividade econômica, encarada como um conjunto, é concebida sob a forma da operação particular, cujo fim é limitado. O espírito generaliza arranjando o conjunto das operações; a ciência econômica se contenta em generalizar a situação isolada, limita seu objeto às operações feitas com vistas a um fim limitado: o do homem econômico; ela não leva em consideração uma atuação da energia que nenhum fim particular limita: a atuação da matéria viva em geral, tomada no movimento da luz, de que ela é o efeito. (Bataille, 2016, p. 46)

Para a teoria de Bataille, é preciso que se aceite o seguinte pressuposto: o organismo vivo recebe energia sempre em excesso na superfície da Terra. Logo o excedente pode ser utilizado para o crescimento do sistema. Se este não pode mais crescer é necessário gastar sem lucro essa energia excedente despendendo-a, seja de uma forma catastrófica (como por exemplo a guerra) seja de uma forma gloriosa. E é justamente esta a questão que Bataille busca elucidar: como impedir que essa energia em excesso seja utilizada para guerras? Como evitar a destruição e as mortes? É preciso, primeiramente, conhecermos o caminho desta energia.

O sol é o ponto de partida para a tese de Bataille. O astro-rei dá energia sem nunca receber nada em troca, e a sua relação de doador de energia é testemunhada na relação das sociedades politeístas com o sol. O deus-sol era aquele que requeria sacrifícios e dádivas para nunca parar de brilhar e dar colheitas abundantes. Essa energia infinita irradiada para a biosfera, quando não se pode mais ser utilizada para crescer é, então, dilapidada. Seria esse, para Bataille, o que motivou o surgimento de formas de vida cada vez mais complexas na Terra: a dilapidação da energia pela natureza é o desenvolvimento luxuoso de formas de vida (como por exemplo o surgimento da manducação, da morte e da reprodução sexuada). O ser humano é o mais apto a gastar improdutivamente pois ele seria a criação mais luxuosa da natureza, assim como o herbívoro é um luxo em relação à planta.

Porém, Bataille avisa, este luxo a ser consumido é tal qual uma maldição. O ser humano pode tentar negar a verdade do dispêndio, porém ela permanece, como uma assombração em relação à produtividade, pois o próprio ser humano é animado pelo luxo e ao mesmo tempo é um luxo. Para enfrentar a angústia frente ao dispêndio, Bataille defende a necessidade de uma postura não individual, e sim geral. Portanto, se vemos a economia por uma maneira restrita os problemas são pautados pela insuficiência, enquanto se a vermos pela forma de uma economia geral o excesso é o que pauta os problemas.

A economia geral tem, como solução para os problemas mundiais, a elevação do nível de vida. Bataille dá, como um exemplo, o contraste da pobreza da Índia e da riqueza dos Estados Unidos. Para ambos países ficarem em pé de igualdade, Bataille defende que a riqueza americana vá para Índia sem contrapartida alguma. Bataille então parte para a análise dos dados históricos para significar os dados presentes. É necessário fazer uma decentralização etnológica, para mostrar a possibilidade de uma forma diferente de economia.

A análise dos dados históricos começa pela sociedade asteca. Bataille começa este capítulo com a afirmação de que, tradicionalmente, os astecas são tidos como nossos antípodas, tendo em vista a forma que o sacrifício era central para sua sociedade. O sacrifício era tão central que as próprias guerras contra rivais tinham como sentido a consumação. Bataille chega a afirmar que a sociedade asteca não pode ser chamada de militar, e sim de guerreira, pois uma sociedade militar pressupõe o cálculo racional, ao passo que uma sociedade guerreira – como a asteca – tem apenas o objetivo de fazer o sol continuar a brilhar. A análise do sacrifício é privilegiada no texto de Bataille. Os astecas julgavam necessários tais consumações para poderem chegar a uma comunicação mais profundas, fora da ordem do mundo profano do trabalho. Sacrificar é tornar sagrado, etimologicamente falando, e o movimento de sacrificar é o movimento de retornar ao sagrado aquilo que foi profano pelo uso servil. O sacrificante também está participando do sacrifício da vítima de forma intensa. A vítima é a parte maldita, afirma Bataille:

A vítima é um excedente retirado da massa da riqueza útil. E ela só pode ser retirada para ser consumida sem lucro, consequentemente destruída para sempre. Ela é, a partir do momento em que é escolhida, a parte maldita, prometida à consumação violenta. Contudo, a maldição arranca-a à ordem das coisas; torna reconhecível seu rosto, que irradia, a partir de então, a intimidade, a angústia, a profundidade dos seres vivos. (Bataille, 2016, p. 73)

Bataille retoma a análise que ele fez a partir de Marcel Mauss sobre o potlatch dos povos indígenas norte-americanos no capítulo seguinte. A sociedade deles também era uma sociedade de consumação como a asteca, porém o centro era a dádiva, a troca. Os soberanos de suas tribos tinham a obrigação de despender sem reservas: as suas riquezas estavam ali para serem dadas e jogadas, e esse sistema de trocas, que era tal qual um encadeamento de dádivas, via as coisas trocadas como divinas, não como coisas para serem utilizadas. O potlatch era a solução que os indígenas norte-americanos viram para o problema do excedente, pois dar era o mesmo que receber um poder. O doador era o maior vencedor, pois é por meio dessas trocas agonísticas que ele consegue seu status. Paradoxalmente, o potlatch é o inverso da aquisição de bens, mas ele próprio tem como fim a aquisição. Sacrifício e potlatch são complementares, de acordo com Bataille, pois enquanto aquele tem como objeto coisas úteis, este tem como objeto coisas inúteis, luxuosas. É importante notar que, para Bataille, quem realmente apreende o sentido do ostentador do potlatch nos dias de hoje não é o militar explorador, nem o místico religioso, tampouco o capitalista, e sim aqueles tidos como miseráveis, isto é, aqueles que pertencem às camadas mais exploradas:

A sociedade atual, nesse aspecto, é uma imensa fraude, em que essa verdade da riqueza é transferida sorrateiramente para a miséria. O verdadeiro luxo e o profundo potlatch de nossa época cabem ao miserável, àquele que se estende sobre a terra e despreza. Um luxo autêntico exige o desprezo total pelas riquezas, a sombria indiferença de quem recusa o trabalho e faz de sua vida, por um lado, um esplendor infinitamente arruinado e, por outro, um insulto silencioso à laboriosa mentira dos ricos. Para além de uma exploração militar, de uma mistificação religiosa e de um desvio capitalista, ninguém poderia doravante reencontrar o sentido da riqueza – o que ela anuncia de explosivo, de pródigo e de transbordante –, se não fosse o esplendor dos farrapos e o obscuro desafio da indiferença. Finalmente, em outras palavras, a mentira destina a exuberância da vida à revolta. (Bataille, 2016, p. 85)

Na terceira parte do texto Bataille tece comentários acerca de duas religiões: o islamismo e o budismo tibetano. Ambas são sociedades voltadas a empreendimentos. O empreendimento do islã é militar. Maomé introduziu no mundo árabe a disciplina e submissão, em contraposição aos caprichos individualistas das comunidades árabes pré-islã. A generosidade das tribos anteislâmicas foi rechaçado, bem como o orgulho individual; o islamismo submeteu a vida religiosa à vida militar (um exemplo disso, para Bataille, seria a maneira que as orações são conduzidas.) e privilegiou a aquisição. Em comparação, na sociedade tibetana predomina uma vida voltada para o sagrado e a contemplação, deixando em segundo plano o desenvolvimento técnico e militar. Ao mesmo tempo que o lamaísmo é um dispêndio puro, ele também se furta do dispêndio: “O Islã reservou todo o excedente para a guerra, e o mundo moderno, para a aparelhagem industrial. Da mesma forma, o lamaísmo para a vida contemplativa, para o livre jogo do homem sensível no mundo.” (Bataille, 2016, p. 108)

A sociedade capitalista é a sociedade de empreendimento industrial, e este será o tema da quarta parte da obra batailliana. O capitalismo se caracteriza por uma recusa e marginalização do dispêndio, e para falar sobre isso Bataille traz a questão da reforma protestante a partir de Weber e Tawney. Enquanto a economia medieval, associada ao catolicismo romano, se caracterizava por ser mais aberta aos dispêndios improdutivos e ser subjugada pelos valores cristãos (proibição da usura, mercadorias a um preço justo), a economia moderna, vinculada ao protestantismo (sobretudo o calvinismo), tem como princípio a acumulação e crescimento, assim como introduz a possibilidade de investir. Os papéis de Lutero e Calvino foram essenciais para o aspecto ideológico do capitalismo (inclusive Bataille afirma que Calvino está para a burguesia assim como Marx está para o proletariado): a condenação dos luxos e do ócio por Lutero e a afirmação dos empreendimentos por Calvino deram motivação para o impulso industrial. As exigências puritanas do protestantismo acabaram com o sagrado e entregaram a terra à burguesia. O mundo burguês é caracterizado pelo primado e autonomia da mercadoria, isto é, o capitalismo é o mundo das coisas: a religião foi libertada do cálculo profano e a economia libertada dos limites externos, porém ambas dão respostas insuficientes à modernidade. A religião oferece apenas uma forma exterior de intimidade, e a resolução dos problemas econômicos não é a resolução dos problemas da vida: o homem não quer ser coisa, e sim ser soberanamente . Entretanto, Bataille adverte, tentar retornar a uma vida medieval é um romantismo reacionário e uma negação do espírito contestador da modernidade. O comunismo também se ocupa com a coisa em primeiro lugar, com aquilo que está aí. De fato, para Bataille, Marx teria conseguido fazer o que Calvino não conseguiu: apresentar a coisa como algo radicalmente independente de tudo.

E é justamente o comunismo o ponto de partida para a quinta e última parte da sua obra. Bataille busca investigar a industrialização da União Soviética. Pós-Segunda Guerra Mundial, o bloco soviético seria o único que manteve uma fé e otimismo, e a negação do interesse pessoal aterroriza o bloco capitalista. Bataille critica a esquerda anti-União Soviética pois esta faz coro com o anticomunismo em geral, e ele também desenvolve uma crítica da noção de totalitarismo. Segundo Bataille, comparar Stalin a Hitler é um grande equívoco, pois o stalinismo representaria uma espécie de Estado universal hegeliano que daria fim aos conflitos econômicos e militares de seu tempo. Há também uma tentativa de compreender a necessidade da coletivização de terras pela União Soviética, devido ao atraso dos czares. Porém, é justamente aqui a maior contradição da União Soviética: dado que os czares eram impotentes para acumular e produzir meios de produção, os bolcheviques se viram forçados a se fecharem para o dispêndio improdutivo e a fazerem aquilo que os czares não conseguiram: acumular para industrializar a Rússia (necessidade do NEP). Isso vai de encontro ao movimento operário internacional, que busca uma maior produção de bens de consumo. O conflito entre União Soviética e Estados Unidos, o início da Guerra Fria, é a preocupação principal para a época que Bataille escreve este texto. Uma guerra direta seria desastrosa para a humanidade, e representaria o fim tanto dos Estados Unidos quanto da Rússia. Bataille afirma que a principal guerra não é militar e sim econômica entre os dois sistemas em busca de hegemonia. A pressão soviética forçou com que os Estados Unidos criassem o Plano Marshall. Este plano, que tratava de emprestar dinheiro aos países europeus afetados pela guerra com juros baixos, significa para Bataille uma solução para o problema da parte maldita. Obviamente, Bataille não esquece que o Plano Marshall serviu para tirar estes países da esfera de influência soviética, entretanto a forma que ele foi aplicado representa uma negação da própria lei de lucro imediato capitalista. O uso do excedente para elevar o nível de vida mundial levaria àquilo que se chama de “paz dinâmica”:

Somente na medida em que essa ameaça os leva a consagrar de sangue frio uma considerável parte do excedente – sem contrapartida – para a elevação do nível de vida mundial, é que – dando os movimentos da economia uma outra saída que não a guerreira para o aumento da energia – a humanidade se dirigirá pacificamente para uma resolução geral de seus problemas. (Bataille, 2016, p. 164)

CONCLUSÕES

Retomemos aqui o cerne da argumentação de Bataille. A utilidade (e todos seus conceitos acompanhantes) serve apenas para operar uma homogeneização, reduzindo os aspectos da vida humana a um determinado valor de uso, excluindo, assim, tudo aquilo tido como inútil – desde o mais luxuoso ao mais considerado abjeto. O centro da vida é o excesso, o dispêndio, e é a ele que a produção está subordinada. Este excesso precisa ser gasto de forma espetacular quando não pode ser mais utilizado para o crescimento, portanto, é necessário evitar ao máximo um gasto que seja catastrófico, como a guerra, por exemplo.

Temos que ressaltar que a teoria de Bataille é uma teoria muito anterior ao advento do neoliberalismo e da sociedade de consumo que, de certa forma, conseguiram abarcar o dispêndio. Entretanto, contra-argumentamos duas coisas: 1) o dispêndio aceito pelo tardo capitalismo é um dispêndio que volta ao lucro, logo, este não é um gasto por si só; 2) de certa maneira, o pensamento de Bataille pré-configura a análise crítica da sociedade de consumo ao postular que o dispêndio é a base da economia.

Outro ponto que se pode criticar Bataille, é a ambiguidade quanto à sua postulação de uma “economia geral”: seria esta algo descritivo ou prescritivo? Bataille está analisando algo que existe ou ele está propondo algo novo? Poder-se-ia responder da seguinte forma: a economia geral é o outro da economia restrita. São aquelas operações escondidas, que são possibilitadas pelas próprias proibições, assim como, segundo a sua obra de 1957 O Erotismo, uma transgressão só é possível se existe uma proibição. Logo, podemos dizer que uma economia geral está para a economia restrita assim como a transgressão está para o interdito, isto é, aquilo que está implicitamente possibilitado pela proibição.

Assim como Bataille buscou trazer dados de seu tempo, exemplificados pela análise da União Soviética e do Plano Marshall, seria interessante tentar aplicar sua análise para os nossos tempos. Como, por exemplo, a questão da multipolaridade e da coexistência pacífica, que de certa forma é profetizada pelo autor no fim de seu livro. Também podemos utilizar sua análise acerca do dispêndio na natureza para analisar a crise ambiental que vivemos por uma outra perspectiva. Seria interessante uma análise batailliana da China contemporânea, e a forma como ela se difere da União Soviética no planejamento estatal dos seus mercados.

A obra de Bataille, A Parte Maldita, apesar de ter sido um fracasso de vendas na época de lançamento, demonstrou-se muito importante para a filosofia francesa posterior pensar as configurações do capitalismo consumista. Como exemplo, podemos citar três obras que seguem os passos de Bataille: O Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia (1972) de Gilles Deleuze e Félix Guatarri; Economia Libidinal (1974) de Jean-François Lyotard; e A Troca Simbólica e a Morte (1976) de Jean Baudrillard. O próprio lugar de Bataille na história do pensamento espelha seu pensamento: o fato de ser maldito o coloca dentro e fora ao mesmo tempo, desafiando o leitor a lidar com esse excesso.

Referencias bibliográficas

Bataille, G. (2016.) A Parte Maldita, precedida de “A Noção de Dispêndio”. (J. C. Guimarães, trad). (2 ed. rev., 1 reimp). Autêntica Editora.

AGRADECIMENTOS

Agradeço a CAPES pelo financiamento da pesquisa e aos professores que ofereceram o seminário que deu origem a este texto: Prof. Dr. Agemir Bavaresco (PUCRS) e Profa. Dra. Izete Pengo Bagolin (PUCRS).

Declaración de conflictos de intereses: El autor declara no tener conflictos de interés.”

Declaración de contribución de los autores/as utilizando la Taxonomía CRediT:

El autor realizó todo el trabajo correspondiente a esta investigación.

Declaración de aprobación por el Comité de Ética: El autor declara que la investigación fue aprobada por el Comité de Ética de la institución responsable, en tanto la misma implicó a seres humanos.”

Declaración de originalidad del manuscrito: Que este artículo es original e inédito, los contenidos son producto de nuestra contribución directa y el trabajo no está siendo ni será postulado de manera paralela para su posible publicación en otro medio